Ato de solidariedade da população mais vulnerável em Cairo, no
NurPhoto via Getty Images

Marisa von Bülow

24/03/2020

Texto publicado originalmente no HuffPost Brasil

A primeira vítima do coronavírus no Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica, contaminada pela patroa, que havia chegado recentemente do exterior e não se autoisolou. A empregada, que sofria de pressão alta e diabete mas não podia se dar ao luxo de perder o trabalho, não resistiu; a patroa passa bem.

A primeira morte em São Paulo foi a de um porteiro aposentado, ele também de origem humilde, ele também diabético e hipertenso. Assim como no caso da empregada carioca, o porteiro paulista morava em cômodos apertados, com muitos parentes a conviver.

Esses casos mostram, de maneira inequívoca e brutal, que o vírus contamina a todos, mas não nos torna iguais. Além dos que têm doenças pré-existentes e dos mais idosos, são os mais pobres os mais vulneráveis.

Os que mais sofrerão com a pandemia são aqueles que não têm acesso a água, por causa de décadas de negligência sanitária; aqueles para quem falar de isolamento social é uma piada de mau gosto, porque antes de serem vítimas do vírus foram vítimas da falta de planejamento urbano; aqueles para quem o Estado de Bem Estar Social é história de ficção científica que acontece em uma galáxia muito, muito distante… São os “Condenados da Terra”, título do famoso livro de Frantz Fanon, publicado em 1961, que denunciava a violência que nasce da desigualdade.

A sociedade civil ocupa o vácuo do Estado

No vácuo histórico deixado pelo Estado, pequenas ações individuais de solidariedade – como dar folga paga às empregadas domésticas e fazer a sua própria limpeza – são não apenas necessárias, mas fundamentais.

Deveria ser algo óbvio, mas não é. Filhos de domésticas lançaram a carta “Pela vida das nossas mães”, endereçada não apenas às autoridades, mas a toda a sociedade civil: “ao constatarmos que nossas familiares que são empregadas domésticas e diaristas continuam trabalhando normalmente, salientamos a emergência de atender à quarentena estipulada pelas autoridades e reivindicamos a dispensa remunerada”.

Outras iniciativas coletivas têm aparecido, lançadas por grupos da sociedade civil atuantes nas periferias urbanas. Várias dessas organizações se juntaram em uma coalizão para lutar contra a pandemia. Em manifesto assinado por dezenas de grupos de todo o País, declaram: “Nós, comunicadores periféricos e periféricas de várias partes do País, estamos juntando esforços para colaborar com informações precisas e que realmente consigam alcançar os nossos. Precisamos saber informar… De nós para os nossos!”.

Nas mídias sociais, mensagens usando as hashtags #CoronaNasPeriferias e #COVID19NasFavelas divulgam informações sobre como evitar contágio, denunciam a falta de água em certas localidades, rebatem notícias falsas e divulgam fotos dos moradores pintando faixas que buscam conscientizar suas comunidades. Essas iniciativas mostram não só que os moradores das periferias precisam ser ouvidos e atendidos, mas também que é fundamental ter uma estratégia de comunicação específica, adaptada à sua realidade.

Os mais pobres estão mostrando o que precisa ser feito e iluminando o caminho a seguir. Não conseguirão, no entanto, combater a pandemia sozinhos. Precisam do apoio das autoridades públicas e da sociedade em geral. Agora.

Os Condenados da Terra: Os mais pobres mobilizam-se frente à pandemia
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